Monólogo

“Embora nunca saia na imprensa (que nunca costuma divulgar esses dados), o maior caso de suicídio de objetos é justamente o dos ponteiros de relógio (quantos relógios você já viu parado?). Desprezados pelos humanos (que sempre olham apavorados para os ponteiros), e também pelo tempo (que insiste em engolir tudo que encontra), os ponteiros simplesmente não aguentam a tirania das horas e saltam para a eternidade.”

– Carlos Henrique Schroeder, em As Fantasias Eletivas.

Com os olhos entreabertos, buscava a pouca luz que ali residia. Deitado no chão, sangrando gota a gota, a vida se esvaia de minas veias vagarosamente. O líquido rubro descrevia uma trajetória, partindo de mim e seguindo randomicamente para o infinito. Meu carrasco andava em volta de meu corpo despojado. Mesmo sem entender direito sua forma, suas palavras faziam-se bem claras impostas por uma voz calma, fria, ausente de qualquer tipo de sentimento:

“Ah, a finitude dos mortais. Que prazer mal aproveitado. Quantas vezes clamam por mais tempo nessa jornada de fim certo, quando na verdade de certo nem se quer o fim é. Tentam preencher-se de niilismo existencial, mas choram por cada segundo a mais que é concedido. Vivem uma eterna maratona, corrida contra si mesmos, porém cujo vencedor não será você. Em vez de puramente largarem-se no oceano de cosmo que é a existência, agarram-se a coisas vãs: matéria, importância, opiniões – para no final serem varridos por mim como o pó que habita sua casa. E ainda atrevem-se a me comprar com a areia, quando na realidade prefiro ser comparado com a água. Muito mais fluida, compõe toda a vida que habita o planeta, que também é composto majoritariamente por água. Talvez Tales de Mileto estivesse certo afinal. Não sei se posso posicionar-me em tal cosmologia, afinal de contas, não sei de tudo. Faço parte do tudo, resido no conjunto geral do infinito, mas desconheço as regras que o regem – creio que isso caiba à ciência. Seria eu o senhor das águas? O tempo não precisa ser unidirecional, para o Universo a linha do tempo é uma corda sobre a qual faz suas acrobacias. A constância não existe nem sequer na micro existência ao seu redor, por que existiria em tão abundante coisa? Às veras admitimos que o micro baste, pois se for para viver pensando no macro, seu filete de sangue estreitar-se-ia muito mais rápido. Mas o que é rápido? Talvez a prolongada jornada pela qual as pessoas passam que seja muito vagarosa. Mas a existência é o único bem que existe de verdade. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiça-la. Mas não significa que devemos viver contando os segundos. Segundos não existem, são movimentos de engrenagens ou ciclos de códigos de computador. Convenções, nada mais. Exatamente por esse motivo não gosto que me comparem com as areias. A areia é contável. Duvido que alguém conte os grãos de areia de uma ampulheta (isso seria desperdício de tempo?), mas é contável. A água também é contável, mas de uma forma muito menos intuitiva. Como você faria isso?  Separaria em gotas? As gotas não são uma medida precisa. E se você criasse uma medida para definir o que é uma gota, criaria algo tão inexistente quanto os segundos. Para contar a água seria necessário contar seus átomos. E os átomos, antes de ser uma ciência exata, eram filosofia, como toda ciência já foi. E se estudarmos filosofia, mesmo que seja para contar o número de átomos que passam por um filete de água, estamos começando a gastar nossas gotas de sangue com o que realmente importa.”.

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