Estaria o Brasil na França do século XVIII?

A Revolução Francesa, que ocorreu entre 1789 e 1799, foi um período de grande conturbação política no país, e disseminou os ideais iluministas por todo o mundo. A influência do pensamento dos philosofes, aliado com uma crescente indignação em relação à má administração do rei Luís XVI, geraram um sentimento revolucionário em toda a população do terceiro estado (que reunia todos àqueles que não eram nem da nobreza nem do clero). Assim, durante a década final do século, decorreram-se os eventos que culminaram na decapitação do rei, a ascensão e queda da república jacobina e por fim o começo do período napoleônico em 18 Brumário.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil?

Uma das grandes fagulhas da revolução francesa foi à fome. O aumento populacional nos 75 anos que precederam a revolução resultou em uma grande crise agrícola, fazendo com que o fantasma da fome assolasse o país.  A frase “Se o povo não tem pão, que coma brioches!” mesmo que seja falsamente atribuída a Maria Antonieta, então esposa de Luís XVI, resume a alienação da corte em relação ao povo. Enquanto a nobreza desfrutava do bom e do melhor, as camadas mais pobres da sociedade morriam aos montes. A fome também é um problema do Brasil atualmente. Segundo uma pesquisa realizada pelo IBGE em 2013, 7,2 milhões de pessoas vivem em estado de insegurança alimentar grave. Em contraste a isso, gastos exorbitantes são registrados em compras de mercado para os órgãos públicos, tudo com dinheiro saído da arrecadação de impostos. O escândalo com relação à compra de mais de 360 mil reais para o Palácio de Guanabara ficou famoso, pois foi massificado, mas todos os dias gastos semelhantes são feitos sem que fiquemos sabendo. A compra incluía nada mais nada menos que gastos em 32 mil reais em cortes de carne, 9 mil reais em frutas como framboesa e blueberry e a compra de 65 quilogramas de uva passa branca. A licitação de tal compra foi cancelada pela revolta que causou nas redes sociais, mas demonstra a má administração do dinheiro dos cofres públicos.

A causa considerada mais forte para a revolução é a economia. Em meio a uma crise econômica, em 1787 (dois anos antes da assembleia constituinte), o rei convocou a nobreza e o clero para que contribuíssem na arrecadação de impostos. Esses, porém, para não saírem do pilar de privilégios em que estavam, impediram as reformas tributárias propostas, agravando os problemas econômicos. Em 2015, o IBPT fez uma estimativa de que aproximadamente 40% que os brasileiros ganharem, em média, é destinado apenas a pagar impostos. A gasolina, por exemplo, tem embutido em seu preço uma carga tributária de 56%. Videogames assustam ainda mais: a carga tributária é de setenta e dois por cento. Além da alta carga tributária, segundo o IPEA, 5,9% dos brasileiros vivem na situação de extrema pobreza – aproximadamente 10 milhões de pessoas.

O clero na França revolucionária era constituído por 0,5% da população, e se unia com o segundo estado para explorar o restante da população. Na atual legislatura de nosso país, a bancada evangélica é representada por 75 deputados federais, quase 15% do total de 513 representantes. Em relação à economia, a grande maioria desses deputados se posiciona como sendo de direita, apoiando o liberalismo econômico.

A história é cíclica. Essa é a importância do estudo das ciências humanas. Quem não aprende com o passado não pode esperar nada do futuro. O Brasil reflete uma situação que aconteceu a mais de duzentos anos, a diferença é que em vez de uma monarquia absolutista nosso governo é de uma oligarquia disfarçada. Eles tiveram a tomada da bastilha, nós tivemos a tomada da avenida paulista (risos). Uma nobreza é eleita pelo povo e não cansa de roubar do terceiro estado, um clero apoiado por seus seguidores fanáticos é contra a mobilidade social e o rei dissolveu-se em um grupo de pessoas que exerce a mesma função. Porém os protestos que lutam contra esse sistema corrupto parecem simplesmente não serem levados a sério, pois mesmo com toda essa conturbação política que vivemos os desvios continuam a acontecer. Mais e mais casos de corrupção aparecem, mas a impunidade continua absolutamente a mesma. Falam de Cuba ser um país parado no tempo por seu retrocesso tecnológico, mas a política brasileira parece não estar muito longe disso – e é uma panela de pressão prestes a explodir. A revolução francesa fez cabeças rolarem quando explodiu. Com toda licença poética do mundo: os políticos que cuidem de suas gargantas.

 

Bibliografia e fontes:

 

Infoescola – Revolução Francesa

Governo do RJ Cancela Compra de Alimentos para o Palacio Guanabara

Brasil Reduz a Fome mas Pessoas nessa Situação Vivem Pior

Posicionamento da Bancada Evangélica

Quanto Pagamos de Impostos

Número de Brasileiros na Extrema Pobreza Aumenta Primeira Vez em Dez Anos

 

 

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