Terror Índigo #3 – Fissuras

Quando a tempestade acalmou, pude finalmente repousar. Os deveres de um capitão são árduos, e eu precisava estar sempre alerta. Infelizmente, os últimos anos foram difíceis para mim, e meu sono com o passar do tempo se tornou mais e mais impregnado por torvos pesadelos: resquícios de minhas memórias de quase morte que voltavam para me assombrar nas mais escuras noites.

Como eu já esperava, alguns minutos deitado bastaram para que minha lembrança mais antiga de temor do beijo gélido do fim da vida voltasse. Na praça em frente ao conselho da cidade de Malpetrim, vi-me novamente em minha mocidade. Um oficial da guarda me acusava de um assassinato que eu não cometera. Isso foi alguns meses após eu ter achado Terror Índigo, mas eu nunca mais entrara em combate com minha espada.

– Eu não matei ninguém! – eu gritava.

– As provas não mentem garoto! Você será preso e executado em praça pública. – me respondeu o militar.

Nunca me esquecerei dele. A meio-aberração demônio, preservava feições humanas exageradamente perfeitas e sedutoras. Seu jeito arrogante era claro pela ausência de armadura ou escudo, e ostentava seu salário altíssimo utilizando uma roupa de gala com cores extravagantes. Mas o que realmente chamava atenção eram seus olhos. Vermelhos, profundos como fossas abissais, brilhantes como o mais puro ouro, mas sem alegria, como se toda a vontade de viver lhe fora negada há muito tempo. Quando o Lefou falava, sua língua se mostrava reptiliana, alterada por alguma mutação da tempestade rubra.

Puxei minha espada. Era a primeira vez que eu a desembainhava desde que eu matei o monstro na caverna.

– Eu não serei preso. Eu lhe desafio para um duelo, um contra um. – eu sabia que imodéstia de um lutador artista não permitiria que ele recusasse meu desafio.

Ele sacou a própria espada, um florete. A lâmina brilhava em tons de vermelho, demonstrando aspectos mágicos que eu não esperava. Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, ele avançou contra mim em um ataque em arco aberto. Bloqueei instintivamente, mas antes de me estabilizar ele já atacava novamente, com uma estocada direcionada ao meu peito. Mas minhas mãos se moveram sozinhas, ambas envoltas do cabo da espada, e desviaram o golpe. A espada parecia ter vida própria, e atacou o swashbuckler em um golpe pesado em direção à garganta.

A partir daí, perdi o foco. Concentrava-me apenas em esvaziar a mente. Minha arma lutava por conta, alheia a realidade a seu redor, tentando apenas derrotar o adversário. A luta tornou-se uma dança suave, deslizávamos sobre as pedras da praça, com algumas dezenas de pessoas nos observando. As faíscas resultantes dos choques das lâminas faziam da luta um espetáculo que seria recordado por muito tempo.

A primeira gota de suor escorreu em minha testa.

A técnica de meu adversário era invejável. Com movimentos rápidos e precisos, percebia cada vez mais a consequência de anos de prática. Logo ele percebeu que eu não estava lutando, mas minha cimitarra. Seu estilo se tornou cada vez mais altivez, se vangloriando de seus ataques compostos de graça e harmonia. Com isso, meus próprios ataques se tornaram mais brutos, e meus bloqueios mais imprecisos.

Logo, toda minha testa estava encharcada de suor.

Mas eu persisti. A garra que a vida das ruas me deu para continuar estava exponencialmente aumentada naquele combate. Não era apenas um duelo qualquer, mas era a resistência de um garoto de rua, sem sequer um tibar no bolso, contra um capitão rico, elite da minha cidade. A simbologia por trás do conflito transcendia a própria importância imediata da luta, extraindo ao máximo do cérebro que trabalha com metáforas. Logo, a praça estava lotada. Eu não sabia mais há quanto tempo eu estava trocando ataques, mas meu corpo estava exausto. O rosto esnobe do oficial tornou-se um rosto preocupado, pois não tinha mais certeza de nada.

Nossos ataques foram se intensificando, e a energia mágica que corria nossas armas começaram a gerar ondas de choque que faziam as roupas da plateia esvoaçar, assustando a muitos espectadores.

Eu ataquei, ele bloqueou. Segurou espada contra espada, e nos olhamos olho no olho. Sua íris purpúrea me chamou a atenção, mas foi aí que caí na armadilha. Dos olhos ele conjurou uma magia, que me prendeu por alguns instantes, sem conseguir me mexer. Ele ergueu os braços e desceu o florete em minha direção. No último instante antes de eu receber o impacto, desviei minha cabeça para trás, mas a espada acertou meu tronco, causando um longo ferimento do peito até a barriga. Não muito profundo, mas extremamente doloroso, o corte começou a pintar minha camisa de sangue. Eu tirei uma das mãos da minha espada e segurei o ferimento, mas ele me chutou e eu fui jogado alguns metros para trás, caindo rolando.

Ele abaixou a guarda e pronunciou-se para a multidão de curiosos:

– É isso que acontece com quem não sabe seu devido lugar. Tenta desafiar quem não deve, e morre de maneira humilhante em frente a todos. Sua morte não será um mártir, será exemplo para que mais ratos como você não tentem se rebelar. Eu julgo-o culpado do assassinato de Miguel e Katrina de Rouph, casal dono da loja de artefatos alquímicos. Morrerá sobre o aço de minha lâmina, sob meu julgamento, Capitão Fyhün da Guarda de Malpetrim.

Enquanto ele dava minha sentença, juntei forças e me ajoelhei. Quando ele se calou e olhou em minha direção, levantei minha cabeça e olhei em seus olhos mais uma vez.

– Se você me chama de rato, você não passa de um verme, que acata ordem de pessoas que você nem mesmo acredita. Você é hipócrita se acredita que é melhor que a mim ou qualquer moribundo da cidade, pois aos olhos de Tenebra, senhora da morte, você é tão pequeno quanto eu. Não matei aquele casal, e o único que comete um crime hoje é você, Fyhün Capitão dos Medíocres.

Não senti raiva. Senti uma vontade inexplicável de viver, como se toda minha energia voltasse. Agarrei o punho de minha espada com toda minha força, e ela arrastou meu braço para cima, se jogando ao céu. Ela energizou-se de energia azul, e um raio cortou o ar, descendo da nuvem mais próxima para a cabeça do capitão, que foi corrido por uma corrente elétrica que causou uma morte quase instantânea. Um cheiro de eletricidade e carne queimada impregnou a praça, e muitas pessoas gritaram assustadas. Um tumulto revirou a praça, e antes que mais algum guarda me atacasse, coloquei meu capuz, cobri meu ferimento como pude, embainhei minha espada e corri, mancando, para dentro do alvoroço, procurando algum amigo que pudesse me ajudar a escapar da situação e me esconder até eu provar minha inocência.

Alguns dias depois, uma investigação mais profunda do caso descobriu que Fyhür tinha matado aqueles alquimistas, pois eles se recusaram a pagar uma taxa que ele e sua milícia cobravam dos comerciantes mais pobres que não tinham dinheiro suficiente para contratar algum tipo de segurança.

Acordei na cama, suando. Coloquei a mão em meu peito, e senti a marca da cicatriz. Apenas um dos muitos ferimentos que adquiri na minha vida. Mas mesmo toda a dor que o corte me causara, não era nada comparada com a dor que eu sofrera, naquela mesma praça, três anos mais tarde. A dor de uma verdadeira traição.

O sono me capturou novamente, e meus olhos fecharam, para mais uma recordação – certamente desagradável.

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