Terror Índigo #2 – A Lâmina Azul

Uma chuva forte caía lá fora. Não uma tempestade a ponto de ser um empecilho, mas forte o bastante para tornar impossível escrever sobre minha mesa. Após a tentativa frustrada de escrever uma carta, rasguei o papel, com raiva. Joguei o resto no lixo, e observei a chama da candeia tremer.

Peguei minha cimitarra que estava pendurada na parede, e deslizei a lâmina para fora da bainha. A frieza do mitral que compunha a lâmina era quase sombria, mas o tom azul da aura que se formava em volta da arma era o que gerava pânico em meus inimigos. A capacidade de invocar raios do céu era uma habilidade única, quase uma lenda: muitos não acreditavam que a Terror Índigo é real, até serem atingidos pelo seu poder.

Anos atrás, até mesmo eu não acreditaria em uma arma como essa. Antes de eu me tornar um pirata, eu fui um garoto de rua em Malpetrim. Eu me recusava a roubar para comer, por isso eu vivia implorando por trabalho. Um dia, um grupo de aventureiros veio até mim, e disse que me dariam dois tibares se eu ajudasse em uma missão. Eu aceitei na hora, nem sequer perguntei o que teria que fazer.

Esse grupo era um pouco incomum. Luo, líder do grupo, era um lefou que crescera nas montanhas, quase sem contato com outras criaturas inteligentes; ele era uma pessoa justa e boa, a meu ver. Lennya era uma elfa bastante triste, eu nunca cheguei a ver sorrir nos poucos dias que passamos juntos, mas sua habilidade com as magias era inquestionável. Ryann era uma pessoa curiosa, vivia discutindo com Luo, mas parecia o admirar pois seguia todas as suas ordens – acho que era assim porque ele era um monge. E Kraigh, um meio-orc bárbaro que não falava muito.

Eu até gostava deles. Não me disseram qual era a missão em que estavam, apenas que iriam explorar uma caverna para encontrar um artefato que seu contratante queria. Eram pessoas de bom coração aparentemente.

Nós viajamos por três dias para norte, sem parar. A civilização ficou distante, e entramos em uma mata fechada que se estendia por quilômetros e quilômetros. Após mais dois dias mata adentro, chegamos a uma gruta.  Eles disseram que eu deveria cuidar da retaguarda, pois estávamos sendo seguidos. Eu me apavorei quando ouvi essas palavras, mas tentei não demonstrar isso. Se eu ouvisse alguém, eu deveria ir atrás dos aventureiros para informar.

Eles entraram na caverna, e eu fiquei do lado de fora. Eu nem sequer tinha uma arma. Muito tempo se passou. Eu calculei quatro horas, mas hoje tenho certeza que foi mais tempo. Eu já estava prestes a fazer uma pequena fogueira para me esquentar, crente de que não havia ninguém além de nós e os animais naquela floresta.

Quando fui apanhar alguns galhos, ouvi passos. Fiquei paralisado, sem me mover. Olhei em volta, e alguns metros à frente eu vi vultos abrindo espaço na mata fechada. Virei-me lentamente, e corri para a gruta. Não lembro muito bem do caminho que fiz, apenas corri mais a mais para o fundo, tentando encontrar alguém. Após descer por quase dez minutos, cheguei a uma sala completamente escura. Eu via apenas uma luz bastante distante, e a segui. Sentia meus pés esmagarem alguma coisa, mas eu não consegui identificar o que era. A luz ia ficando mais e mais perto, até que eu a alcancei. Ela vinha de uma sala maior. Passei por um corredor que ligava ambas, e fechei o olho quando entrei em contato com a luz direta. Essa sala maior deveria ter uns quinze metros de altura, quase vinte de largura e eu simplesmente não conseguia enxergar o final – algo tapava minha visão. Várias moedas de ouro e platina cobriam o chão.

Quando me acostumei completamente com a luz, vi os aventureiros lutando contra um monstro gigantesco. Ele era quase tão auto quanto o cômodo, era um humanoide de pele roxa e asas que quase encostavam as paredes. Ele segurava uma espada proporcional ao seu tamanho com a mão direita, e com a esquerda gesticulava, executando algum tipo de encantamento antigo.

Eu entrei em choque. Fiquei parado, sem saber o que fazer. Meu cérebro simplesmente não processou o perigo. Olhei em volta, buscando alguma solução. Havia várias e várias armas de aventureiros que morreram tentando matar a criatura espalhadas pelo chão, junto com seus ossos.

Quando olhei para a criatura novamente, ele destruiu Kraigh com um golpe. A espada era tão grande que sequer corto o corpo do meio-orc, ele simplesmente virou uma mistura de carne, sangue e ossos. Nesse momento, um surto de adrenalina invadiu meu corpo, e eu procurei algo para fazer.

Nas laterais da câmara, havia pilhas e pilhas de tibares, e eu subi em uma delas para tentar enxergar melhor. Não foi uma tarefa fácil, mas eu estava tão energético que consegui. Procurei algo que pudesse ajudar, e minha atenção logo foi chamada para um artefato brilhante. Do auto, sem o demônio para tapar completamente minha visão do fim da sala, eu podia ver que ele protegia aquele item de aura azul.

Sem pensar, corri por entre os montes de ouro. Vi o monstro agarrar Lennya com a mão que antes conjurava, e a esmagar tão facilmente quanto se esmaga um inseto. Eu virei a cabeça para não ver a cena, e continuei correndo. O monstro pareceu não me ver, até que eu passei pelo seu lado. Quando cheguei ao outro lado da sala, ele se virou para mim, como se me sentisse. Eu corri o mais rápido que pude. Vi ele levantar a espada o máximo que o teto permitia, e baixar em minha direção. Eu me arremessei para frente rolando, e senti o chão estremecer quando a espada se chocou atrás de mim. Eu me levantei e continuei correndo. Faltavam apenas trinta metros, e consegui ver que o artefato era uma espada.

O tempo parecia correr mais devagar. Eu sentia o humanoide se virar. O ar parecia pesado. A espada me chamava. Eu corri.

Quando eu cheguei ao pequeno altar que era meu destino, coloquei a mão no cabo da arma. Olhando agora de perto, vi que era uma cimitarra, e estava encravada em seu suporte. Eu puxei. A lâmina deslizou na pedra macia, e eu tive a primeira visão daquela obra dos deuses. Eu senti uma energia percorrer meu corpo, me dando coragem. A espada falava comigo. “Vá, ataque”, ela parecia me dizer. Eu perdi total controle de minha mente, eu apenas agi. Pulei em direção a besta, ergui a espada sobre minha cabeça e o golpeei. Ele bloqueou com a própria arma, mas não foi rápido o bastante para golpear meu segundo golpe – pisei na perna do monstro para pular mais uma vez e dei uma estocada em sua barriga. Sangue azul jorrou do ferimento, que tinha quase trinta centímetros de profundidade, algo impressionante devido à rigidez de seu couro. Seu urro de dor veio carregado de mágoa. Alguém que nunca fora ferido tinha sangrado. Aproveitei a raiva de meu adversário e me segurei em seu pelo, escalando seu tronco e executei um segundo corte limpo em sua garganta, fazendo jorrar mais e mais sangue.

Pulei para traz, e cai deslizando sobre os tibares de ouro e platina que forravam o chão. O monstro se ajoelhou, olhou profundamente em meus olhos, e caiu, já sem vida, de peito no chão.

O surto de adrenalina passou, e eu voltei a recobrar a consciência. Tudo era mais claro agora. Do outro lado da sala, vi Luo e Ryann me encararem. “Quem é você?” perguntou-me o líder, gaguejando. “Eu sou…” eu lembro de ter feito uma pausa bastante dramática para continuar a frase “O Terror Índigo”.

A missão deles era levar a espada para um nobre, mas eles não se atreveram a questionar minha posse sobre ela. Mais tarde, defini Terror Índigo como o nome da própria arma, um nome digno de seu valor. Descobri que quem nos perseguia era uma guarde de Malpetrim, pois esse grupo de aventureiros era de Smokestone, e estavam sendo caçados a tempo por toda Petrinya. Eu tentei argumentar com eles, mas eles quiseram lutar. Foram os primeiros, tirando o demônio, a sucumbirem a minha nova lâmina – e eu ainda nem conhecia seu verdadeiro poder.

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